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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Deus Existe?


Deus e a razão
Por: Carlos de Brito Imbassahy

Afinal, quando todos discordam entre si, ninguém tem razão. Confúcio


Razão vem do latim, ratio, onis, segundo os dicionários, é a faculdade do raciocínio.

Na antiga Grécia, o termo correspondente era “logos” e estava vinculado à natureza e sua existência. Deve-se a Platão dividi-la em razão intuitiva (noesis), discursiva e conclusiva. Pela ordem: razão imediata; razão do conhecimento através de uma série de raciocínios; e a terceira, aquela que não permite dúvida ante as premissas que a imponham.
O racional, portanto é relativo à razão.

Já na retórica clássica encontraremos a razão demonstrativa que expõe as evidências; a razão argumentativa que usa o raciocínio lógico como proposta de discussão e a razão final, como indica o nome, que enfeixa os conceitos usados como argumento e leva a uma conclusão.

Todavia, para quem pensa que este termo teve sempre tal conotação, e sua origem latina é a mesma, pego anotações do meu pai (1) e transcrevo algumas delas:

Horácio: Ratio – o raciocínio; e mais: Mala ratione facere rem – enriquecer por modo ilícito. Lucrécio: Navigii ratio – a arte de navegar.

Cícero: Mea est sic ratio – esta é minha opinião; Ratio carceris – motivo dos encarcerados; Pro ratione fructuum – por motivo dos frutos...

Cada qual que conclua à sua moda. Contudo, no presente, somos levados a usar cada termo com seu sentido atual e deixar para os devaneios o que possa ter sido seu significado em tempos antanhos. Atualmente, ter razão é estar certo. É um conceito da Lógica.

Relativamente a Deus e à razão, muitas indagações são feitas; a exemplo: por que Deus fez o mundo? (Qual a razão de tê-lo feito). Que razão nos levaria a concluir pela existência do “Criador”? Há razão em admitir a existência de um Deus único, responsável por tudo? Ele se enquadra na lei de causa e efeito?
E por aí afora.

O nosso objetivo, porém, é analisar a figura de Deus dentro da razão, no sentido lógico, afinal, os embates entre as religiões, as linhas filosóficas e as verdades científicas criam um choque terrível, como vimos anteriormente, nos comentários já publicados.

Até o momento, pelo que se pôde ver, existe um enorme conflito entre os que negam e os que afirmam que Deus exista dentro dos puros conceitos religiosos e tudo indica que as discussões se resumem de acordo com os critérios facciosos de cada expositor.

Quem revolucionou os conceitos a respeito de Deus – para os que queiram, também, ler as entrelinhas – foi um mestre francês, discípulo dileto de Pestalozzi e que se tornou o responsável pela introdução em seu país pela metodologia de ensino do grande didata suíço. Chamava-se Léon Hippolyte Denizard Rivail (1804 – 1869), mas, ao ser convidado por Forrestier, um pesquisador dos fenômenos transcendentais da vida após a morte, a estudar tais ocorrências hoje conhecidas como metanímicas ou mediúnicas – de manifestação do morto –, dedicou-se ao seu estudo codificando uma nova doutrina filosófica de conclusões científicas, como ele próprio define, para correlacionar a existência do Espírito fora do corpo com sua vida encarnatória.

Para não misturar seu estudo pedagógico com suas pesquisas consideradas transcendentais, ele preferiu usar um pseudônimo – Allan Kardec – para expor seu novo trabalho. A essa doutrina ele criou o neologismo em francês de Spiritisme para denominá-la, todavia, no Brasil, ela tomou dois ramos distintos, um deles também conhecido como Roustaingismo, baseia-se na obra “Os Quatro Evangelhos” ou “Espiritismo Cristão” de Jean Baptiste Roustaing e segue a linha docetista de uma antiga igreja otomana do século IV e que fora condenada por bula papal já em velhos tempos.

Como tal, este segmento admite que Jesus não tenha tido corpo carnal e sim, “fluídico”, assim denominado erroneamente, já que fluido é material também. Diverge, em muitas coisas de Kardec e, aboliu da sua obra o principal livro “O Que é o Espiritismo”, considerando apenas cinco obras do codificador às quais denomina – também erroneamente – de “Pentateuco espírita”; assim mesmo, em sua tradução para o nosso idioma modifica muito do seu conteúdo, chegando a adulterar capítulos, no caso do livro “A Gênese” a fim de eliminar os textos de Kardec conflitantes com o aludido docetismo adotado. E um desses capítulos é o referente a Deus.

A segunda corrente, dos “cristãos espíritas” – também chamada de Emmanuelismo –, baseia-se principalmente em obras mediúnicas de Entidades espirituais que, em sua vida terrena, foram ligadas à Igreja e tem como fundamento principal os Evangelhos do Novo Testamento, os quais também os interpreta sem levar em conta as críticas de Kardec feitas em seu livro relativo aos mesmos.

Seus seguidores quase nunca se preocupam com as obras da codificação, estudando quase que exclusivamente os trabalhos mediúnicos destas Entidades.

Há ainda uma série de seitas mediúnicas, conhecidas como “terreiro” que se dizem espíritas e que servem para os detratores apontarem o aludido Espiritismo como coisa do “demo”. Nenhuma delas, porém, sequer estuda a codificação.

A única doutrina que pratica o mediunismo e merece todo respeito, sem se dizer espírita é a Umbanda, fiel a suas origens afro, embora muitos de seus adeptos – e mais do que os que se dizem espíritas – estudem Kardec.

O que ora iremos analisar, das palavras de Kardec, por vezes entrará em choque com ambas as correntes acima citadas porque foge inteiramente aos seus conceitos evangélicos, contrariando, em parte, muitas de suas posições, já que as mesmas “adoram” Deus à moda cristã e têm Jesus como Guia supremo do nosso planeta.

A fim de evitar conflitos, usaremos as obras de Kardec no seu original francês, publicadas em 1868 – Ed. Lacroix – que, segundo Dr. Silvino Canuto Abreu, foram as últimas edições revista pelo mestre lionês. Com destaque para o cap. I de “O Livro do Espíritos” (6ª ed.) e cap. II de “A Gênese” (3ª ed.), além de tópicos do seu principal livro “O Que é o Espiritismo” em sua primeira edição original.

Como todos sabem, os livros de Kardec foram inspirados em perguntas por ele feitas aos Espíritos manifestantes e à hegemonia de respostas dadas por diversos deles, para que pudesse observar uma certa universalidade de opiniões. Vejam a sutileza de indagação e a resposta dada, logo na primeira pergunta que Kardec fez em O Livro dos Espíritos:

P. – Que é Deus?

Ora, isto afasta por completo o conceito de Deus Ente espiritual como um ser humano (à nossa imagem e semelhança), pois, neste caso, a pergunta seria obrigatoriamente “Quem é Deus?” Já contrariando a Bíblia, em ambos os Testamentos e as correntes doutrinarias brasileiras que O têm como um Espírito.

A resposta ainda é mais contundente: – Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

Por partes: ser “causa primária” não é ser Criador; o cigarro é, em certas pessoas, a causa primária do câncer pulmonar, mas, não é o criador do tumor maligno. E mais: também defini-Lo como “inteligência superior a tudo” não significa que ele tenha criado nada. Além disso, vamos ver ainda Kardec definindo Deus como “infinito”, portanto, não pode ser contido por um espaço restrito como o cósmico nem nele se manifestar, principalmente porque este se expande. Já, poder-se-ia dizer que Deus contenha o Universo; não se garante tal hipótese, mas, sendo “infinito”, nele está tudo o que possa ser finito e, como tal, Ele é que não cabe no restrito espaço cósmico finito. E em expansão.

Matematicamente, o limite infinito das coisas é o começo de tudo que não tenha origem, portanto, este conceito se enquadra nas Ciências exatas. É também o fim de tudo em condições idênticas. A circunferência é infinita nos dois sentidos: em que ponto ela começaria e em qual terminaria? Pode-se ficar rodando sobre ela infinitamente sem saber onde está seu começo nem onde será seu fim.

Por outro lado, se o Universo, como conseqüência de alguma ação existe, a ele corresponderá uma causa, para que seja dela o efeito ou conseqüência. Ora, sem dúvida: a causa da existência do Universo tem que ser “suprema” – superior a tudo –, primária e compatível com ele; não apenas, ter a configuração restrita dos habitantes de um ínfimo planeta que nada representa perante sua grandeza.

Deus, assim, jamais poderia ser um “Espírito” como os humanos; e Kardec nos mostra, em seus conceitos, que Ele pode ter predicados correspondentes àquilo que sirva de definição para as coisas, todavia, sem jamais possuir caracteres humanos. É assim que no aludido capítulo II de “A Gênese” Kardec tenta descrever a figura de Deus diferenciando-a dos conceitos bíblicos adotados pelos evangélicos, inclusive os que se dizem espíritas em nosso país.

Dos atributos divinos, todos eles são incompatíveis com a figura bíblica do Deus que conversa com Moisés e que fica irado; enfim, como diz Kardec, contrariando seus principais fundamentos e características Ele é de infinito poder e bondade; assim, não pode ser o “criador” do mal, contrariando, mais uma vez, a tese evangélica de que teria Ele criado tudo.

Talvez, por outro lado, tenha usado tal conceito à falta de melhores sentidos figurativos, pela metodologia do ensino, tentando mostrar que não procede a idéia de “castigo divino” muito menos de ter sido d’Ele a criação do mal e dos fictícios personagens bíblicos de Lúcifer e Satanás. Aliás, não existe “criação”: isto é mera artimanha para que os textos bíblicos não sejam contrariados, configurando suas inverdades perante a Ciência.

Em princípio, para ser infinitamente justo não pode perdoar ninguém (o que não significa condenação); ao contrário, deverá fazê-lo cumprir a “lei de causa e efeito” que Jesus traduziu em linguagem simples dizendo “assim como fizeres, assim acharás” mas que os próprios evangélicos geralmente ignoram porque, para eles, Jesus é o grande protetor dos seus adoradores e, como tal, perdoaria incondicionalmente seus atos, bastando, para, tal, adorá-lo em essência e verdade. Chegam a dizer que ele “sofreu” na cruz para resgatar nossos débitos: que absurdo! Evidentemente, só os fiéis a ele, Jesus, estariam salvos provando uma terrível parcialidade porque os bons que não o tenham seguido seriam condenados, apesar de justos...

E Deus, como causa suprema, jamais contrariaria esta sábia lei de justiça, nem para atender a seus fanáticos adoradores! Afinal, esta lei é que mantém o Cosmo em equilíbrio.

Contudo, Kardec resume sua idéia relativa ao Supremo Agente do Universo dizendo: – “quando invocamos Deus, quem vem em nosso socorro é sempre um Espírito amigo”. Esta forma elimina qualquer possibilidade para que o homem, mesmo sendo Moisés, venha a conversar com Ele nem que seja em lugares sagrados, porque a sagração é pura forma humana de adoração.

Um outro aspecto curioso que se pode ver é aquele em que Kardec apresenta esta suprema causa como geradora permanente de seres e coisas, o que é perfeitamente compatível com o progresso sideral onde, a cada momento surge um novo corpo ou forma primitiva e uma nova essência existencial para seu desenvolvimento.

Vale também o inverso, ou seja, a cada momento, algo de novo surge e algo de antigo desaparece; os mais recentes estudos cósmicos nos falam das estrelas canibais, encarregadas de fazerem desaparecer do espaço sideral muita coisa que deva ser eliminada.

Kardec, portanto, analisou Deus à luz da razão, tentando tirar da idéia a concepção de que Ele seria um Ente espiritual igual a nós e com predicados puramente humanos, elevados ao extremo. Esse Deus antropomórfico não existe; é substituído, quando apelamos para Ele, por um Espírito amigo que venha em nosso socorro porque, senão, seria de uma terrível injustiça analisá-Lo em casos como aquele em que uma caravana de romeiros devotos de Nossa Senhora da Aparecida fretou um ônibus para ir à cidade da sua padroeira nos dias de comemoração e o veículo sofrera terrível desastre na viagem. Vários acabaram falecendo e muitos saíram feridos. Uma senhora que se ficara incólume declarou para a repórter que fora Deus que a salvara, só que a entrevistadora não teve a presença de espírito para indagar por que Deus, já que pôde salvá-la, não fez o mesmo com os demais devotos? Parcialidade baseada em quê?

Ou então o caso de dois times que disputam uma partida: o vitorioso declara que fora Deus que o ajudara a vencer; e por que Deus prejudicou a outra equipe fazendo-a perder? Por que tal outra parcialidade? No caso, o mérito passa a ter segundo plano.

Sem dúvida, o homem quer ver neste seu Ser Supremo um indivíduo equivalente a ele em seus íntimos conceitos, ajudando parcialmente a uns, talvez mais devotos, e prejudicando a outros por pura antipatia. Este é o Deus religioso que Kardec tentou desmitificar.

Por isso, muitos, ao traduzirem os textos de Kardec foram obrigados adulterá-los, a fim de não negarem tal crença, já que, no original francês da terceira edição mencionada, o codificador do verdadeiro Espiritismo tenta sutilmente fazer com que se veja que tais conceitos são inteiramente errôneos porque o Deus antropomórfico, além de não ser “infinito” e cheio de sentimentos (ou defeitos) humanos, jamais se tornaria compatível com o cosmo universal e, como tal, incapaz de tê-lo criado. Por sinal, foi exatamente esta posição que Kardec deve ter tomado, de forma sutil, tentando mostrar a seus estudiosos que o Universo jamais poderia ser criado da forma que apregoam, embora, só século e meio depois dele a Ciência nos dê subsídio para provar que, apesar da sutileza, Kardec usara a prudência para admitir a existência de uma “causa suprema” sem tirar a fé do crente que necessita avidamente de “crer” num Ente imaginário que seja tão humano quanto ele, para que tenha fé e confiança no seu Poder, mesmo com a justiça arranhada pela parcialidade da sua crença.

Note-se ainda que Kardec, vivendo numa sociedade do século XIX altamente cristã e numa civilização onde negar certos dogmas religiosos seria verdadeiro escândalo, parece que tentou, de alguma forma, intermediar entre a lógica de seus argumentos e o absurdo das imposições religiosas, sem provocar escândalos nem ferir susceptibilidades. Foi altamente político, neste sentido.

Mas, definindo sua doutrina como ciência de conclusões filosóficas no preâmbulo da sua principal obra “O Que é o Espiritismo”, afirmou em diversas outras ocasiões que ela acompanharia a evolução dos conhecimentos e sempre que alguma afirmativa correlata ficasse provada, ela passaria a integrar o Espiritismo.

Pois está na hora de se confirmar uma causa (Deus?) infinita como motivo de existência do Universo cíclico e sempre renovado por novas formações. Esta causa, porém, jamais poderá ser um Criador que teria dado início à nossa formação cósmica, tornando-a finita.

O grande mal da Religião é querer impor seus erros atribuídos ao Ente Supremo, a fim de não admitir que seu Deus não seja perfeito.

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