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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Organização do Centro Espírita (FINAL)



Organização do Centro Espírita (FINAL)

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Esse continua sendo um dos pontos mais delicados no trato da questão mediúnica, pois toca no problema da necessidade de dedicação do médium à mediunidade. É muito comum a frase: "você é médium", por vezes emitida numa primeira entrevista, ser utilizada como instrumento de proselitismo. Penso que essa postura deve ser reavaliada, mesmo que se constate a presença de mediunidade ativa (caracterizada, ostensiva, mediunato). Não está demonstrado que os médiuns necessitam se dedicar ao centro espírita "para não sofrer perturbações".

Há ainda um outro ponto em que o conceito de mediunidade generalizada toca: o do caráter de graça ou provação atribuído à mediunidade:

"O conceito de mediunidade que vigora entre nós, na maioria esmagadora dos centros, é espantosamente ambivalente e portanto contraditória. Afirma-se ao mesmo tempo que a mediunidade é uma graça e uma provação, que os médiuns são espíritos grandemente faltosos, não obstante adorados como enviados de Deus. Os que estudam seriamente a Doutrina logo percebem a falsidade desse conceito. A mediunidade é uma faculdade natural da espécie humana, como todas as demais faculdades." (17)

A atitude de adoração, adulação ou até louvação de médiuns tem como causa principal a falta de reflexão sobre o papel da mediunidade.

2.2 - As reuniões mediúnicas

Nas reuniões mediúnicas realizam-se os contatos com espíritos no centro espírita. Qualquer processo de análise ou revisão envolve necessariamente essas reuniões. De acordo com o modelo proposto elas devem consagrar conceitos e métodos próprios do Espiritismo.

Quando Kardec classificou as reuniões mediúnicas como frívolas, experimentais e instrutivas(18), buscou identificar as "condições especiais" em que as reuniões sérias devem ser realizadas, destacando a necessidade de participação de pessoas sérias e o intuito de se instruir.

A uniformidade de objetivos e sentimentos, só possível com um número pequeno de participantes, ganha aqui um significado vital(19). Mesmo os centros espíritas que optam por crescer necessitam cuidar para que as reuniões mediúnicas não inchem e portanto não percam esse caráter.

Seria possível estabelecer critérios generalizados? Creio que alguns, sim. A começar pela busca de aperfeiçoamento e instrução. As reuniões mediúnicas que perpetuam os seus objetivos, métodos, médiuns e até comunicações podem estar perdendo a oportunidade de contribuir para o aprimoramento técnico e moral dos participantes e do próprio Espiritismo. Essa observação vale também para chamadas reuniões de assistência, que discutirei adiante, onde estrutura e personagens costumam se cristalizar no centro espírita.

Duas das características de um trabalho sério são a regularidade e a continuidade, pois a experiência mostra que a participação dos espíritos é também regular. No entanto, Kardec alerta que, "se bem os Espíritos prefiram a regularidade, os de ordem verdadeiramente superior não se mostram meticulosos a esse extremo. A exigência de pontualidade rigorosa é sinal de inferioridade, como tudo que seja pueril." (20)

Quando estudou a influência do meio, Kardec colocou que "uma reunião é um ser coletivo, cujas qualidades e propriedades são a resultante das de seus membros e formam como que um feixe". Como conseqüência, apresenta as "condições mais favoráveis para uma Sociedade que aspira granjear a simpatia dos bons Espíritos", entre elas: perfeita comunhão de vistas e sentimentos, cordialidade recíproca, desejo de se instruir e melhorar, recolhimento e silêncio respeitosos, e outras(21). No trato com espíritos perturbadores, propôs "enérgica resistência", envolvendo prece, caridade e atenção(22).

Há um ponto sobre o qual pairam dúvidas na organização de reuniões mediúnicas: a validade de se evocar espíritos. Largamente utilizado e defendido por Kardec, esse método foi fundamental em suas pesquisas(23). Nos relatos constantes do livro O céu e o inferno, por exemplo, é grande o número de casos estudados com uso de evocações. Emmanuel, através da mediunidade de Francisco C. Xavier, recomenda que as evocações não sejam utilizadas "em caso algum".

A idéia de Emmanuel é generalizada entre os centros, e é no mínimo estranha. A maior dificuldade em potencial — a de identificação dos espíritos — também foi sentida e estudada por Kardec(24). A organização de reuniões mediúnicas em geral, e os trabalhos de pesquisas, em particular, requerem um novo estudo desses conceitos. Senão estaremos correndo o risco de obedecer a proibições bíblicas com a justificativa única de que não estamos preparados.

O preparo contínuo dos médiuns para a realização de suas tarefas requer a elaboração de um processo de desenvolvimento da mediunidade, também chamado de educação mediúnica. Não é mais admissível deixar que a "prática" ou a "vida" ensinem por si mesmo. Kardec colocou a necessidade de desenvolvimento, estudando sobretudo a mediunidade psicográfica(25). Há, basicamente, dois aspectos no desenvolvimento do médium(26):

(1) a prática, que envolve a necessidade de aperfeiçoamento técnico,

(2) a aplicação, que abrange a compreensão da influência moral e intelectual que exerce sobre as comunicações, da melhor maneira de aplicar seu potencial e das dificuldades e cuidados que a atividade mediúnica envolve.

Em termos de aplicação, é fundamental que a formação de médiuns leve em consideração o seu papel nas comunicações. O animismo, fenômeno observado por Kardec e outros pesquisadores, requer um estudo aprofundado no processo de desenvolvimento da mediunidade, pois o seu desconhecimento tem levado ora a confusões e enganos em relação a comunicações, ora a preconceitos descabidos em relação a médiuns. Adoto a conceituação utilizada por Alexandre Aksakof(27), em que animismo e mediunidade não se excluem. Segundo ele podem ser identificados os seguintes tipos de fenômenos:

anímicos não mediúnicos, que envolvem exteriorizações do próprio ser através dos sonhos, do sonambulismo, da telepatia, da clarividência no espaço e no tempo, da telecinesia, da telemnesia, da psicometria etc.
anímicos mediúnicos, que envolvem participação de pessoas vivas em fenômenos mediúnicos tais como psicografia, psicofonia, aparições etc.

espíritas (necessariamente mediúnicos), que envolvem participação de pessoas desencarnadas.

Essa classificação foi também adotada por Ernesto Bozzano(28). Segundo ela, o médium que transmite mensagem de seu próprio espírito, quando em estado de emancipação, realiza um fenômeno anímico mediúnico. Kardec estudou esse caso e concluiu que esse assunto é sutil e delicado, necessitando muitas observações e meditações antes de se concluir qualquer coisa sobre a natureza de determinado fenômeno. Concluiu também que é generalizada e natural a influência do médium nas comunicações(29). Isso nos leva à necessidade de rever duas posições: por um lado, o descuido na identificação dos fenômenos mediúnicos de natureza anímica e, por outro, o preconceito em relação a médiuns que apresentam características anímicas, confundindo-os com charlatães(30).

Todas essas considerações, se não resolvem, pelo menos levantam aspectos relevantes na estruturação das reuniões mediúnicas.

A revisão estrutural das reuniões mediúnicas tem base teórica sólida para ser realizada nos centros espíritas. Envolve antes de mais nada uma definição mais objetiva do papel da mediunidade e a valorização das atividades de formação de recursos humanos. O ponto mais importante é a mudança de visão dos dirigentes, médiuns e freqüentadores de uma forma geral: a mediunidade deixa de ser um sacerdócio para ser um instrumento de trabalho e pesquisa, deixa de ser uma expiação para ser uma das mais ricas manifestações da natureza humana.

O aprimoramento das reuniões mediúnicas é decisivo para o centro. Quanto mais voltadas para o próprio desenvolvimento do Espiritismo, maior impacto trarão à feição e à estrutura da casa espírita.

3. ESTUDOS E PESQUISAS
Os espíritas em geral consideram que o caminho de continuidade do Espiritismo e dos próprios centros está nas atividades de estudos e pesquisas. Apesar disso elas ainda buscam seu lugar ao sol, pois faltam medidas objetivas. Neste item estudo essas atividades e suas perspectivas.

3.1 - A Base do Centro

Os estudos e as pesquisas são o sustentáculo do centro. As diversas atividades do centro são embasadas e orientadas por eles. As pessoas tomam contato com o Espiritismo, criam, desenvolvem e substituem atividades baseadas neles. No entanto, isso não tem sido verdade na grande maioria dos nossos centros reais, por razões culturais diversas.

Embora reconhecida como fundamental por dirigentes e freqüentadores de todas as casas, poucas vezes se encontra um centro espírita em que as atividades de estudos e pesquisas sejam colocadas como as mais importantes. Muitas vezes a necessidade salvadora de "praticar a caridade" (dar roupas e alimentos, dar passes, atender pessoas e espíritos) substitui o peso do conhecimento espírita, que daria certamente uma grande contribuição para libertar as pessoas de seus maiores problemas existenciais.

Allan Kardec chegou a propor uma estrutura para as reuniões, baseado na experiência da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Nota-se a preocupação básica com estudos e pesquisas:

"Os trabalhos de cada sessão podem regular-se conforme se segue:

1a Leitura das comunicações espíritas recebidas na sessão anterior, depois de passadas a limpo.

2a Relatórios diversos. - Correspondência. - Leitura das comunicações obtidas fora das sessões. - Narrativa de fatos que interessem ao Espiritismo.

3a Matéria de estudo. - Ditados espontâneos. - Questões diversas e problemas morais propostos aos Espíritos. - Evocações.

4a Conferência.-Exame crítico e analítico das diversas comunicações. - Discussão sobre diferentes pontos da ciência espírita."(31)

A proposta de Kardec sugere que:

(1) estudos e pesquisas são as atividades básicas da sociedade,
(2) o nosso principal objeto de estudo é a mediunidade,
(3) podemos utilizar as próprias comunicações obtidas na casa como instrumentos de aprendizado e pesquisa.
Para os grupos que não possuíssem médiuns, Kardec propôs também que realizassem estudos diversos(32).

Em relação à pesquisa, em particular, é necessário, antes de tudo uma desmistificação da palavra. Denomino pesquisa a todas as atividades do centro que envolvam um trabalho de elaboração humano(33). Assim sendo, a mais simples reunião mediúnica pode realizar pesquisa, bastando para isso que adote uma metodologia de trabalho e um conjunto de técnicas para aplicá-la, sempre na busca de conhecer algo mais.

O maior exemplo que tivemos neste sentido veio do próprio Kardec. As diversas obras da codificação apresentam exemplos da postura de Kardec em relação à pesquisa mediúnica. Para ele era muito clara a diferença entre o seu papel e dos espíritos: ele era o pesquisador, enquanto os espíritos, médiuns e fenômenos eram objetos de pesquisa. Cabia a ele planejar, conduzir e avaliar continuamente os resultados da pesquisa (este era o trabalho de elaboração humano, necessário em qualquer pesquisa).

Uma estrutura baseada em estudos e pesquisas traz problemas a serem enfrentados. O primeiro se refere à necessidade de restrições à freqüência e à integração de novos participantes(34). São atividades que exigem intensa participação das pessoas, assiduidade e amadurecimento dos grupos de trabalho. Se pessoas novas e inexperientes entram e saem de um grupo continuamente, é muito difícil fazê-lo progredir e dar uma contribuição real. O processo de integração de novas pessoas necessita de critérios claros que envolvem seu conhecimento prévio de Espiritismo, seus vínculos com o centro e com o grupo de estudo, sua idade, seus interesses etc. O estabelecimento desses critérios só trarão realmente algum problema se forem mantidas as velhas idéias de grandeza do centro e da necessidade de conquistar freqüentadores a qualquer custo.

Os novos participantes se integram aos poucos e recebem recursos para se aperfeiçoarem e se prepararem para atividades mais elaboradas, através de cursos, palestras e seminários. Só não podemos cair na armadilha do catecismo, que estabelece passos rígidos e predeterminados para se atingir algum estágio. O centro espírita possui uma estrutura aberta ao crescimento e à participação. Há pessoas que com pouco tempo mostram-se preparadas para novos desafios: já leram vários livros, compreenderam os pontos fundamentais da doutrina e têm interesse pelo trabalho. Elas não podem ficar enterradas em cursos infindáveis antes de começar a contribuir.

Outro problema se refere à integração de crianças e jovens nas atividades, que numa estrutura moderna, deve ser a maior possível. As crianças e, em menor escala, os jovens, compartilham o mundo com uma visão diferenciada. São preocupações, interesses, formas de abordagem diferentes e que podem receber, por parte do centro espírita, espaço próprio para sua expansão. Qualquer que seja o campo de visão a contribuição do Espiritismo é muito grande, porque toca no que todos temos de mais profundo: nossa capacidade de ser, existir e crescer. É fundamental, no entanto, identificar os pontos comuns e as oportunidades de convivência para aprendizado conjunto. Através de sua participação em atividades integradas os jovens têm contribuído para que os estudos ganhem espaço nos centros(35).

3.2 - Critérios necessários para uma estrutura baseada em estudos e pesquisas

A criação de uma estrutura baseada no conhecimento envolve alguns critérios necessários para lhe dar consistência:

a) Os estudos e pesquisas devem levar em consideração os contextos histórico, cultural e social.
b) O material de estudos deve ser consistente e abrangente.
c) As reuniões devem possuir uma estruturação didática.
d) Os participantes de cada grupo devem estar integrados em termos de trabalho e relacionamento.

A mudança de caráter dos centros espíritas tem nos estudos e pesquisas sua mola mestra. Se por um lado está na mediunidade a pedra de toque — podendo-se afirmar que só as alterações metodológicas da maneira como esse tema é tratado realmente caracterizariam um novo centro — cabe por outro lado ao trabalho de estruturação dos estudos e pesquisas espíritas no centro o papel de iniciar ou consolidar todo o processo de revisão.

Dar importância ao estudo não se resume a dedicar quinze minutos de cada reunião à leitura de um livro, como se fosse apenas uma atividade acessória. Trata-se de colocá-lo no centro do processo de estruturação e crescimento do centro, criando, avaliando e orientando as demais atividades.

No que se refere à pesquisa, em particular, cabe uma palavra sobre a documentação. O registro de planos, procedimentos e resultados é uma característica dos grupos de pesquisa sérios, que visam se aperfeiçoar sempre e ainda deixar sua contribuição.

A preparação de recursos humanos e a reunião de materiais adequados constituem-se nos dois melhores instrumentos para a colocação dos estudos e pesquisas como base do centro espírita.

4.CENTRO ESPÍRITA E A SOCIEDADE
Todos os espíritas concordam que as relações entre o centro espírita e a sociedade são necessárias, mas em que forma? Recebendo as pessoas aflitas, aconselhando-as e curando-as? Assistindo a pobres? Salvando as almas? Divulgando o Espiritismo? Ou fazendo, por outro lado, campanhas para políticos espíritas? Penso que nenhuma dessas atividades resolve, por si só, a questão.

É certo que já existem hoje características marcantes nas relações sociais do centro espírita, entre elas:

(1) a busca dos centros espíritas por pessoas de diversos matizes, geralmente à procura de um amparo às suas dores,
(2) a assistência social realizada pelos espíritas,
(3) a ligação dos médiuns com a comunidade, através dos serviços que prestam no centro ou nos atendimentos fora dele, e o reconhecimento do seu papel social(36).
Uma revisão dessas relações deve partir de uma reflexão sobre os seguintes pontos:
(1) a necessidade de abandonar o proselitismo e o clientelismo, caracterizados sobretudo pela intenção de prender as pessoas ao centro,
(2) a necessidade de estudar, acompanhar e discutir a evolução cultural e moral da sociedade, ao invés de simplesmente ignorá-la e se afastar dela,
(3) a importância de estudar, formar uma visão crítica, buscar e propor caminhos reais para uma evolução da sociedade, sobretudo no que se refere a suas injustiças e desigualdades.

Existe uma falsa idéia de que a sociedade tem algo a buscar no centro e este nada tem a receber dela. Esse conceito, que aparece ora implícita, ora explicitamente, distorce e reduz a inserção social do centro. Uma coexistência viva e claramente assumida, uma troca bilateral ativa, uma busca em comum, são características desejáveis para uma revisão dessas relações.


4.1 - Defesa do Espiritismo
Defender o Espiritismo é — ainda — uma das tarefas principais do centro espírita. Há três preocupações nessa área: os ataques de adversários, as distorções geradas por muitos adeptos e as confusões que se fazem com outras doutrinas espiritualistas.

Quanto aos ataques, é certo que não vivemos mais o período que Kardec identificou como "de luta"(37). No Brasil, onde a história também registra momentos difíceis para os espíritas, o respeito e reconhecimento social pelo Espiritismo são hoje inquestionáveis, a menos de setores mais reacionários ainda existentes em alguns meios religiosos. Há também uma crescente adesão a conceitos adotados pelo Espiritismo, como a imortalidade, a comunicabilidade dos espíritos e a reencarnação. Tudo isso faz com que hoje as relações com os adversários sejam outras. Não cabem mais os debates emocionais. Mas não procede, por outro lado, o descuido e a omissão. É de responsabilidade dos centros espíritas esclarecer a comunidade, sempre que possível, sobre os ataques, principalmente quando se baseiam em casos isolados de charlatanismo. Para José Herculano Pires a defesa do Espiritismo não prescinde da energia e da virilidade:

"Propagou-se no meio espírita, através de mensagens mediúnicas, tendendo a um masoquismo de cilícios e autopunições, a estranha idéia de que a virilidade só pertence aos cultores da violência.
Voltamos assim ao sistema igrejeiro dos rebanhos de ovelhinhas inocentes devoradas por lobos famintos sem qualquer possibilidade de defesa. Entregues a essa idéia derrotista, o meio espírita abastardou-se a ponto de até mesmo recusar-se a defender a Doutrina aviltada pela ignorância travestida de bondade e doçura." (38)

As confusões que ainda existem entre Espiritismo e outras doutrinas precisam ser desfeitas. Uma contribuição importante à elucidação dessa questão foi dada por Delindo Amorim em sua obra O Espiritismo e as doutrinas espiritualistas(39), onde mostra as diferenças entre o Espiritismo e doutrinas com os quais chega a ser confundido, tais como a umbanda, o candomblé e a cabala. Entendo que a principal diferença é metodológica, embora haja também diferenças conceituais importantes. O centro se firma como espírita não só por adotar as obras de Allan Kardec, mas sobretudo por assumir sua metodologia de abordagem das diversas questões.

As distorções geradas no âmbito do próprio movimento espírita merecem atenção especial. São as que têm causado maiores prejuízos. O centro espírita comprometido metodológica e conceitualmente com o Espiritismo age em sentido contrário a essas distorções e realiza, desta forma, a maior entre todas as tarefas de defesa social da doutrina.

4.2 - O centro espírita para o homem(40)
O Espiritismo rompe com as doutrinas que vendem a salvação depois da morte. Não promete nada, não sugere adesão involuntária, não se mostra como único caminho. Oferece a sua luz sem pedir subordinação, substitui a obediência cega pela atuação consciente e entrega a cada um a responsabilidade pela própria vida. Liberta o homem.

A liberdade que o Espiritismo oferece é baseada no conhecimento. Compreendendo o significado da vida e a verdadeira natureza de si mesmo, o homem começa a dar passos seguros, deixa de ser joguete das circunstâncias e traça o seu próprio caminho.

É claro que isso não é uma receita de liberdade, pois cada um que se encontrar com o Espiritismo reagirá a seu modo. Uns darão mais voltas, hesitarão mais, serão mais vagarosos ou passarão por maiores conflitos, enquanto outros encontrarão com maior facilidade seus próprios caminhos de libertação. Mas para todos o Espiritismo traz a liberdade em potencial. Cada um que o aproveite a seu modo.

O centro espírita é a casa do Espiritismo e deverá canalizar o potencial libertador da doutrina. Para conseguir isso, deverá antes de tudo ver as pessoas como indivíduos diferentes entre si, com capacidades morais-intelectuais, anseios, preocupações e problemas diferentes. Ao contrário do que fazem os templos religiosos, o centro espírita não pode se propor a uma massificação de idéias e comportamentos. Cabe a ele manter, é bem verdade, um certo zelo com a doutrina, defendendo sua autenticidade, seu caráter racional, e evitando desvios, infiltrações ou distorções, mas não é possível conceber um centro realmente espírita que distribua a todos uma interpretação particular do Espiritismo. Estaria boicotando a doutrina, desviando os objetivos do grupo e escravizando as pessoas.

O Espiritismo visa o homem. O centro espírita é um dos meios de atingi-lo. O homem do centro espírita transformará a si mesmo e à sociedade se tiver o Espiritismo como instrumento. Se o centro espírita inverte essa relação, isolando-se da vida real e exigindo do homem que abandone seu mundo, está traindo os próprios objetivos do Espiritismo. A "paz" que oferece, "não encontrada lá fora", é uma versão disfarçada da fuga que incentiva. Não vai contribuir para construir ou libertar nada.

O centro espírita é feito para o homem, não o contrário. O homem do centro espírita vai ver o seu dia-a-dia como a continuidade de um movimentado processo evolutivo. Passará a compreender o significado revolucionário da imortalidade e o verdadeiro sentido da vida que vive. Compreenderá as relações entre os mundos material e espiritual, as mudanças de estado entre encarnação e desencarnação e as influências mútuas entre o livre arbítrio e a lei de causa e efeito. Entenderá o caráter transitório da vida atual, que não pode ser analisada fora do contexto da eternidade, mas ao mesmo tempo valorizará esta vida. Afinal, dentro do vai-e-vem da evolução, que momento não é importante?

O homem do centro espírita valoriza o momento em que vive porque sabe que a vida não é uma farsa. Tudo que está aprendendo e realizando é fundamental. Compreende e valoriza a vida após a morte, mas não vive em função dela, pois sabe que o entendimento das relações entre as vidas atual e futura só tem significado se contribuir para entender a realidade de sua existência atual. O momento que vive é, para ele, enquanto vive, o mais importante, pois é quando está preparando, ou realizando, a grande arrancada.



4.3 - A sociedade como tema de estudo

A sociedade é um dos mais importantes e interessantes objetos de estudos e pesquisas no centro espírita. Marginalizados na maioria dos grupos, devido à tradição politicamente conservadora do movimento, os temas sociais tendem a encontrar seu lugar nos estudos à medida que a própria sociedade se democratiza.

Tem sido até agora com certa dificuldade que algumas pessoas ou grupos têm tentado trazer para o movimento espírita um estudo e uma discussão mais aberta da sociedade e seus problemas, à luz do Espiritismo. Nos anos 80, por exemplo, alguns encontros de jovens do Estado de São Paulo se propuseram a debater a questão social e foram fortemente criticados por isso. O mesmo aconteceu com o ENSASDE - Encontro Nacional sobre o Aspecto Social da Doutrina Espírita, realizado em 1985 (Santos), 1987 (São Paulo) e 1989 (Salvador). Reunidos nesses encontros exclusivamente para analisar a questão social, diversos espíritas produziram extenso material de pesquisa e abriram espaço para uma maior abertura a essa temática nos centros espíritas.

A posição de Kardec em relação a isso é claríssima. Chega a sugerir que sejam discutidas as matérias dos jornais:

"A par das obras especiais, formigam os jornais repletos de fatos, de narrativas, de acontecimentos, de rasgos de virtudes e de vícios, que levantam graves problemas morais, cuja solução só o Espiritismo pode apresentar, constituindo isso ainda um meio de se provar que ele se prende a todos os ramos da ordem social." (41)

O próprio O livro dos espíritos apresenta, na sua terceira parte, um estudo vigoroso das leis morais, que tocam em vários aspectos da vida social, tais como a distribuição de riquezas, a liberdade, a justiça, a família, o trabalho e outros(42). Um estudo sério dessa parte do livro básico do Espiritismo não prescinde da reflexão e do debate social, bem como da busca de caminhos para os homens, para a comunidade em que vivem e para a sociedade como um todo. Nesse sentido uma contribuição importante foi dada por Aylton Paiva com seu livro Espiritismo e política(43), onde encontramos um estudo das leis morais sob o enfoque da análise social e política.

O estudo espírita da sociedade se baseia em dois conceitos fundamentais:

(1) o homem é um espírito encarnado, e vive em cada momento toda a sua história espiritual,

(2) as relações que estabelece condicionam em grande parte o seu desenvolvimento.

Para entender o homem e a sociedade não é suficiente enxergá-lo como indivíduo em evolução espiritual, pois o homem não é apenas um produto de si mesmo, da mesma forma que a sociedade não é apenas uma soma ponderada de homens. Também grosseira seria a redução do homem a um produto do meio.

Tratar abertamente da temática social e política nos centros espíritas, como proponho, é uma atitude que ainda encontra resistências. Os dirigentes adotam em geral uma interpretação conservadora da doutrina, baseando-se num suposto caráter "apolítico" do Espiritismo e dos centros. Autores conceituados também fazem coro. É um engano, pelo simples motivo de que não há conceito, atitude, grupo ou pessoa apolítica. Não discutir política, por exemplo, é uma atitude política, no sentido de que evita a reflexão sobre todo um conjunto de problemas do homem e da sociedade, como se fossem irrelevantes.

O grande pensador espírita argentino Manuel Porteiro deixa muito claro que o Espiritismo não pode ser um instrumento de conivência com a injustiça:

"Dedicando o Espiritismo a resolver somente problemas metafísicos, próprios da velha escolástica, somente à investigação do além-túmulo, preso à velha moral das religiões, que ensina a respeitar falsos direitos e injustos privilégios, como coisas absolutamente necessárias e de acordo com a justiça divina e causalidade moral de cada ser, perde seu caráter de ciência integral e progressiva e, em vez de ser um ideal humano, propulsor do progresso e das causas nobres, aberto a toda iniciativa de bem-estar social, a toda tendência renovadora e libertária, torna-se, em mãos de espíritos limitados, numa doutrina retrógrada e conservadora, numa arma formidável para abater consciências e conter todo impulso generoso que tenda a estabelecer um novo regime social, mais justo e conforme as exigências do progresso." (44)

4.4 - Atuação social
A conscientização não tem um fim em si mesma. Visa relacionar a teoria com a prática, a idéia com a realidade. Se o centro espírita der ao homem a chance de conhecer o Espiritismo e se conscientizar de seu papel individual, estará também contribuindo para a ação. Para Kardec a conscientização é decisiva:

"A aspiração por uma ordem superior de coisas é indício da possibilidade de atingi-la. Cabe aos homens progressistas ativar esse movimento pelo estudo e a aplicação dos meios mais eficazes." (45)

Realmente, a atuação social consciente e determinada é uma conseqüência natural do estudo da sociedade. E é também uma forma de buscar na realidade social vigente subsídios para esses estudos.

Em que termos essa atuação pode ser feita pelos espíritas individualmente e pelos centros como grupos? Aqui, mais uma vez, não cabem regras, mas quero discutir essa questão.

Cabe aos homens conscientes, cada um a seu modo, contribuir para que a sociedade progrida, não simplesmente "fazendo a sua parte", mas buscando influenciar para que novos e cada vez melhores rumos sejam traçados. Apenas um exemplo: na ótica espírita a educação de boa qualidade é uma condição importante para o progresso material e espiritual. Os pais espíritas são orientados nos centros a valorizarem a educação. A luta por uma melhoria na educação pública, que não é uma preocupação só dos espíritas, passa a ser também um desafio para esses pais, juntamente com muitos outros.

No plano individual não cabe colocar limites aos campos de atuação. Deixando a apatia e a passividade de lado, cada um vai buscar seus campos e formas próprias, de acordo com o que sabe e busca. Isso tem relação com uma posição de Kardec em O livro dos espíritos:

"Por que, no mundo, os maus, tão freqüentemente, sobrepujam os bons em influência?

- Pela fraqueza dos bons; os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem dominarão."(46)

Em relação à atuação social do centro espírita, como grupo, é necessário ter alguns cuidados:

(1) Lembrar sempre que o compromisso primeiro do centro espírita é com o Espiritismo, ou seja, a difusão e o desenvolvimento da doutrina. Engajar diretamente o centro nas lutas sociais só tem sentido se não forem esquecidas as áreas próprias da doutrina.

(2) As preocupações com o poder temporal, inevitáveis nas lutas sociais, podem ofuscar os objetivos maiores a que o Espiritismo se propõe em relação ao homem e à própria sociedade.

(3) A política partidária, com suas campanhas eleitorais e interesses contrastantes de partidos e pessoas, poderá, em momentos de descuido, engajar o centro espírita em interesses outros que nada têm a ver com o Espiritismo.

Havendo equilíbrio e firmeza doutrinária, tenho certeza de que nenhum desses prejuízos ocorrerá.

Qualquer que seja a forma e o grau de atuação de cada um, espíritas e grupos espíritas — tanto quanto o próprio Espiritismo — possuem um compromisso com a vida, a cidadania e a democracia. A luta pela valorização do homem como ser integral e pela construção de uma sociedade para todos é tarefa também dos espíritas.

Algumas dessas atividades, além de outras mais, podem contribuir para a própria manutenção da sede do centro, muitas vezes um pesado ônus para seus sócios.

A tradicional apatia do centro espírita em relação à organização social tende a desaparecer. O homem moderno não se conforma mais com conceitos abstratos de "bem", "mal", "amor" e "caridade", busca o que realmente significam. Abrindo as suas portas para a sociedade, com seus problemas, angústias e anseios, o centro espírita talvez deixe de ser uma ilha de tranqüilidade no mar tempestuoso para ser o remo que faltava ao navegador.



5. PODER NO CENTRO ESPÍRITA

No modelo apresentado, ressaltei a importância de não existir no centro hierarquia estática e restritiva. A manutenção de pessoas ou grupos por períodos longos no poder é uma causa freqüente de cristalização de idéias e criação de mecanismos de defesa do poder já estabelecido. Aquele modelo deixa bastante claro também que é dos homens a responsabilidade pela definição dos rumos do centro, não dos espíritos.

5.1 - Mandatos divinos

A principal causa da centralização de poder no centro espírita tem sido a alegação de existência de mandato conferido pela "espiritualidade superior". Dirigentes, médiuns e espíritos, em geral visando o melhor para suas casas espíritas, acabam por estabelecer critérios e procedimentos de fechamento do poder. O periódico espírita Espiritismo e Unificação realizou um estudo sobre o poder no movimento espírita que identifica esse problema:

"Nos nossos meios, a revelação mediúnica tem sido usada como instrumento para avalizar ou determinar um tipo de mandato divino, seja ele circunscrito a um centro, a um médium ou dirigente, seja, em maior amplitude, através de determinadas organizações federativas. Todos alegam possuir um certo poder divino, que lhes teria sido dado pela Espiritualidade Superior.

"A ignorância generalizada do Espiritismo, mesmo nos meios mais dinâmicos, voltados, quase sempre, para o fator místico, se traduz no fascínio que a mediunidade exerce.
Sem dúvida, esse fascínio é uma clara acepção de Poder. O médium, nos nossos meios, extravasa o sentido de medianeiro, de intercomunicador, para se transformar em autoridade, capaz de dominar não somente um núcleo específico, mas projetar-se por toda a coletividade.
Um exemplo típico é que certos médiuns se transformam em oráculos e muitos nada fazem sem consultá-los e suas opiniões já não são analisadas, mas ao contrário são ordenações infalíveis.

"Por isso identificamos o Poder clássico fluir, sem esforço, no médium-principal, que aconselha e dita ordens como verdades irrecorríveis; podemos constatá-lo no Guia Espiritual que domina grupos, não permitindo iniciativas dos encarnados; ou verificamos no presidente perpétuo, no "dono do centro".(47)

Médiuns, dirigentes e espíritos assumem muitas vezes papéis messiânicos e de infundada autoridade nos centros, sem que haja qualquer motivo para se atribuir a eles rótulos diferenciadores. Em momentos de divergência ou discordância, invocam sua autoridade divina para impor suas posições. É bem verdade que essas são atitudes humanas compreensíveis, mas é necessário que a estrutura do centro não as incentive.

Médiuns, dirigentes e espíritos possuem papéis relevantes no centro, é importante frisar. O que deve ser evitado é o seu endeusamento, a mistificação e o engrandecimento imotivado de suas funções, que prejudicam a eles e ao grupo. É indisfarçável a posição desconfortável dos dirigentes e dos médiuns-principais que a todos têm que amparar, aconselhar, e em todos os momentos têm que apresentar as soluções finais para cada assunto. Uma situação que eles, juntamente com seus seguidores, criaram.

Não pode ser esquecido também que o poder existe, sendo um espaço a ser ocupado. É sempre possível identificar, numa estrutura de poder centralizado, aquele ou aqueles que o exercem, por um lado, e aqueles que, apaticamente, se permitem ficar longe dele. Alguns até reclamam, mas não ocupam seu espaço. Seria muito difícil nesses casos identificar nos "vilões autocráticos" a causa única da centralização. Por trás de um dono de centro existe muitas vezes uma história de dedicação e luta solitária por uma causa.

5.2 - Critérios para abertura

Num processo de abertura à participação é fundamental que os princípios espíritas e os objetivos básicos do centro sejam respeitados. Aqueles que não o conhecem ou que ainda não mostraram condições para aplicá-los não estão preparados para assumir funções relevantes. Um caso que presenciei em São José dos Campos ilustra a importância desse cuidado: um grupo numeroso de freqüentadores de um centro de umbanda da cidade começou a freqüentar um centro espírita, por recomendação de seu guia, que disse que deveriam conhecer Allan Kardec. Logo se tornaram sócios e, por discordarem de alguns procedimentos da direção lançaram uma chapa de oposição. Venceram as eleições seguintes.

Existem mecanismos inerciais utilizados por vários grupos espíritas para evitar essas situações. Um exemplo é a criação de um quadro de sócios efetivos, no qual só ingressam sócios que freqüentam a sociedade há um certo tempo e que demonstram seu conhecimento do Espiritismo. Esses sócios, e só eles, participam das Assembléias, podendo eleger e ser eleitos a cargos da diretoria.

Na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas havia restrições à participação, só sendo aceitos aqueles que demonstravam conhecer os princípios básicos do Espiritismo ou que desejavam se instruir, entre outras exigências. Além disso reservava-se o direito de limitar, se conveniente, o número de associados livres e dos sócios titulares.(48)

Para aperfeiçoar e democratizar as relações entre as pessoas no centro espírita deve-se partir da constatação de que o poder é um elemento real e necessário nos diversos grupos e instituições, não podendo ser diferente nos centros.

A criação de um centro espírita aberto e dinâmico, com ampla liberdade de crescimento, é um desafio para todos os seus participantes. É sobretudo nessa área que se torna importante a preparação sistemática de recursos humanos. Aos poucos os interessados vão se preparando para dar maiores vôos, dentro de suas características.

As relações de poder serão tratadas também no próximo item, que enfoca o movimento espírita.

6. INTEGRAÇÃO ENTRE CENTROS ESPÍRITAS
Integrar sem interferir na individualidade de cada grupo. Reunir para intercâmbio de idéias e informações. Realizar atividades voltadas para objetivos comuns. Estes são os principais objetivos da integração entre centros espíritas. Apesar de ser indiscutível sua necessidade, a integração entre centros ainda busca seu caminho de realização. É que também aqui pesam as relações de poder, e num grau muito maior.

Na Revista espírita de janeiro de 1862, Allan Kardec convidou os grupos espíritas a participarem do desenvolvimento da doutrina, através de três textos:(49)

(1) "Publicidade das comunicações mediúnicas", em que discute as alternativas para publicação do número cada vez maior de comunicações e referenda a criação da "Biblioteca do mundo invisível" pelos Srs. Didier & Cia., com essa finalidade,

(2) "Controle do ensino espírita", no qual apresenta a conformidade do ensino dos espíritos como o melhor critério para garantir sua autoridade e informa que a Sociedade de Paris encaminhará a partir daquela data diversas questões doutrinárias para serem estudadas pelos grupos que com ela se correspondem, por correspondência particular ou por intermédio da Revista,

(3) "Questões e problemas propostos aos vários grupos espíritas", com seis questões a serem estudadas e discutidas, sempre baseadas em comunicações de espíritos, uma delas com a incrível afirmação de que "nenhum Espírito humano pode manifestar-se ou comunicar-se com os homens".

Estava dada então a tônica da integração que desejava para os grupos e o tipo de participação que cada um poderia ter: caberia a cada um deles contribuir para que as questões em aberto fossem resolvidas. Posteriormente, em dezembro de 1868, apresentou na própria Revista a "Constituição transitória do Espiritismo", com proposta de continuidade do Espiritismo e criação de um comitê central de coordenação.(50)

Começo com essas lembranças para ressaltar um ponto que se perdeu no movimento espírita brasileiro. Em geral, quando se fala em movimento espírita, integração ou unificação, esquece-se o desenvolvimento do Espiritismo, através da pesquisa e do intercâmbio de informações, possivelmente a principal contribuição que se poderia tirar dessa união. E era exatamente essa a maior preocupação de Kardec.

É sobretudo nesse sentido que a integração se faz necessária. Mas ela pode trazer outras contribuições, como o aperfeiçoamento dos próprios centros a partir do intercâmbio que estabelecem. Um grupo espírita que mantenha contato com outros que têm objetivos análogos terá sempre material para aperfeiçoar seu conhecimento, seus métodos e seus resultados.

Esse é o pano de fundo. Sem ele o movimento espírita se torna fórum para questões menores e palco para disputas de poder.

Os grupos espíritas tendem a se diversificar cada vez mais. A integração entre eles não poderá ser suportada mais por uma sistemática massificante e de caráter global. Uns buscarão intercâmbio para seus estudos e pesquisas, outros organizarão cursos de preparação. Outros ainda, trocarão idéias sobre formas de aplicar o passe e de realizar a assistência social. As grandes instituições unificacionistas poderão manter o seu papel se aprenderem a conviver com a divergência e buscar o que há de comum. Mas independentemente delas, os grupos procurarão cada vez mais seus pares para com eles crescer. Ao contrário do que muitos pensam, pode estar aí o caminho de libertação do Espiritismo, pois ele não pertence a nenhuma dessas instituições.

7. CONCLUSÃO
Para que realizar uma revisão estrutural do centro espírita? O primeiro e grande motivo para revisar é adequar o centro espírita à sua finalidade maior: estudar, pesquisar, desenvolver, consolidar e difundir o Espiritismo, tendo como base a obra de Allan KARDEC. Mais do que um simples pano de fundo, mais do que uma motivação ou orientação, o Espiritismo precisa ser o objetivo primeiro do centro espírita, já que este é a casa daquele. O Espiritismo é ao mesmo tempo a base e meta do centro espírita. Como base, direciona e dá subsídios para a estruturação das diversas atividades. Como meta, estabele-ce parâmetros para definir quais são as atividades que permitem ao centro melhor contribuir com o Espiritismo, sem desviar os seus esforços para outros objetivos.

Busquei neste trabalho apresentar a base conceitual e os meios para a realização desta tarefa. Sintetizo agora, de forma mais sistemática e objetiva, algumas propostas para implementação das melhorias necessárias.

7.1 - A base conceitual já existe
A base conceitual do centro espírita — o Espiritismo — foi desenvolvida inicialmente por Allan Kardec. Além de nos apresentar informações sobre o mundo dos espíritos e a discussão filosófica das diversas conseqüências da imortalidade e da reencarnação, a sua obra nos forneceu um método de trabalho(51). É sobretudo neste método que está baseado o centro espírita. Adotando-o, o centro torna-se porta voz, duplicador e continuador do trabalho de Kardec.

Não é espírita o centro que:

não tem por base a obra de Kardec;
não utiliza o método de Kardec no trato da mediunidade;
utiliza conceitos e métodos que confrontam com as propostas de Kardec.

7.2 - O modelo proposto serve de base para a reestruturação
O modelo conceitual apresentado é simples o suficiente para se adaptar a diferenças e transformações culturais, mas oferece restrições à manutenção de conceitos, estruturas, métodos e costumes ainda vigentes nos centros espíritas. Exige uma revisão estrutural que priorize o compromisso com o Espiritismo e a libertação de estruturas arcaicas de poder. A discussão crítica e contínua da estrutura necessária para implementar e consolidar este modelo num centro espírita pode contribuir para que seja estabelecido um caminho seguro e direcionado para o aprimoramento.

7.3 - Uma opção diferente
Como foi visto no início, é grande a variedade de faces dos grupos que se autodenominam espíritas. Assim sendo, a opção estritamente espírita — sem desvios doutrinários e sem outros objetivos que dispersem as ações perdendo o foco principal — pode ser vista como uma opção "diferente". Sem dúvida, poderá ser considerado diferente da maioria o centro espírita que:

tem no estudo a sua base;
realiza pesquisa espírita;
aplica o método de Kardec no trato com a mediunidade;
não distribui passes "à granel" em todas as suas reuniões;
não trata qualquer pessoa que procura o centro como doente, e não a encaminha desde o início para uma "entrevista" e um tratamento espiritual;
apresenta-se como uma casa de estudos e não como um hospital; evita dizer, logo no primeiro contato com uma pessoa que procura o centro, que ela "é médium e precisa desenvolver a mediunidade para se livrar de suas perturbações";
está voltado para o homem e não obriga o homem a estar voltado para o centro, como se este fosse um fim em si mesmo;
discute abertamente a contribuição do Espiritismo nos diversos temas que afetam o homem moderno; contextualiza o estudo espírita;
é dirigido por um grupo representativo de pessoas; não é dirigido por espíritos ou pelos médiuns que transmitem suas orientações;
comunica-se, troca idéias e integra-se com outros grupos, mas propõe a integração como instrumento de crescimento do Espiritismo;
na integração com outros grupos não se subordina a idéias e práticas massificantes (não focadas nos objetivos principais do Espiritismo e do centro espírita), luta contra as distorções e a inércia.
O centro que adota esta opção poderá ser único num bairro ou mesmo numa cidade, às vezes isolado, sem ter com quem trocar idéias. É fundamental evitar este isolamento, aproximando-se e mantendo contato contínuo com grupos afins, mesmo que geograficamente distantes. Poderá ter menos freqüentadores que os demais da região e alguns de seus freqüentadores, que prefeririam vê-lo recebendo muitas pessoas, talvez questionem. Poderá ser acusado de não praticar a caridade e tudo o mais, mas estará oferecendo um produto diferenciado: o Espiritismo. E esta certeza basta.

7.4 - Por onde começar?
Esta dúvida pode aparecer. Tanto há para fazer que não se sabe como planejar, iniciar e conduzir um processo de revisão estrutural. Para responder a esta questão podemos fazer analogia à tarefa de subir uma grande escada: o que temos a fazer é começar, dar o primeiro passo. Temos a direção a seguir (os conceitos espíritas) e possuímos instrumentos poderosos (livros, pessoas, grupos afins para trocarmos idéias). Portanto, só temos que começar.

Qual é o objetivo do centro espírita? Esta é a primeira questão a ser respondida por todo grupo espírita que desejar iniciar ou rever suas atividades. A partir dessa reflexão será possível criar, desenvolver, excluir, modificar ou aperfeiçoar as diversas atividades, para que se adeqüem aos objetivos estabelecidos. Um critério é básico para todas: que firmem o compromisso do centro com o desenvolvimento, a aplicação e a divulgação do Espiritismo.

É claro que não há um único caminho. Busquei identificar neste livro os principais critérios para realizar este trabalho. Citei também as principais referências encontradas na literatura sobre o assunto. Mas o caminho propriamente dito depende das características e da estratégia de cada centro. Rediscutidos os objetivos, o processo se desdobra de forma planificada.(52)

Uma atividade que passa a ser fundamental é a gestão do processo de estruturação, que garantirá a sua implementação. Para realizá-la, podem ser obtidas algumas lições dos estudos de organização de empresas, que costumam trabalhar com objetivos, métodos e resultados precisos. Muitos estudos e experiências sobre a Gestão da Qualidade Total aplicados em diversas organizações fabris e de serviços no mundo todo podem também ser aproveitados na gestão do centro espírita, aplicando-se de acordo com os objetivos específicos a que se propõe o centro.


Referências
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Allan KARDEC. Instruções práticas sobre as manifestações espíritas - Vocabulário espírita. Em: -. Iniciação espírita. p. 182-216. -. O livro dos médiuns. parte 2, cap. XIV-XVI, p. 195-236 e cap. XXXII, p. 478-480.
-. Dos médiuns. Em: O livro dos médiuns, parte 2, cap. XIV, item 159, p. 195.
J.Herculano PIRES. Mediunidade: vida e comunicação: conceituação de mediunidade e análise geral dos seus problemas atuais. cap.II, p 18.
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Allan KARDEC. Das reuniões e das sociedades espíritas. Em: -. O livro dos médiuns. parte 2, cap. XXIX, item 333, p. 421.
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Deolindo AMORIM. O Espiritismo e as doutrinas espiritualistas.
Este texto é uma adaptação de outro escrito em 1986, que faz parte do artigo: Mauro de Mesquita SPINOLA. O centro espírita e a sociedade. Em: Autores diversos. Espiritismo e sociedade. p. 59-66.
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Aylton Guido Coimbra PAIVA. Espiritismo e política.
Manuel S. PORTEIRO. Espiritismo dialéctico. p. 57.
Allan KARDEC. Liberdade, igualdade e fraternidade. Em: -. Obras póstumas. parte 1, p. 193.
Allan KARDEC. Felicidade e infelicidade relativas. Em: -. O livro dos espíritos. parte IV, cap. I, questão 932, p. 431-432.
O PODER e o movimento espírita. p. 5-6. Os termos "médium principal" e "dono de centro" designam, respectivamente, o médium supostamente mais importante no centro (incumbido, geralmente, de receber as comunicações do espírito orientador - guia - do grupo) e o dirigente que ocupa continuamente as funções de presidente e coordenador das atividades da casa. Essas figuras existem, sob diversas formas, em vários grupos.
Allan KARDEC. Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Em: -. O livro dos médiuns. parte 2, cap. XXX, artigos 3º e 6º, p. 436-437.
Allan KARDEC. Publicidade das comunicações espíritas. Controle do ensino espírita. Questões e problemas propostos aos vários grupos espíritas. Em: -. Revista espírita. v. 5, ano 1862, p. 11-20.
-. Constituição transitória do Espiritismo. Em: Ibid., v. 11, ano 1868, p. 367-392. O mesmo texto, ampliado, pode ser encontrado em: -. Constituição do Espiritismo - exposição de motivos. Em: -. Obras Póstumas. parte 2, p. 288-319.
Allan KARDEC. Introdução - II - Autoridade da doutrina espírita. Em: -. O evangelho segundo o Espiritismo. p. 11-18. -. Caracteres da revelação espírita. Em: -. A gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. cap. I, itens 12-18, p. 15-18.


Referências bibliográficas

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ANDRADE, Hernani Guimarães. Morte, renascimento, evolução: uma biologia transcendental. 3a ed. São Paulo, Pensamento, 1985.
BOZZANO, Ernesto. Animismo ou Espiritismo? Qual dos dois explica o conjunto dos fatos? Trad. Guillon Ribeiro. 3a ed. Rio de Janeiro, FEB, 1982.
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DIAS, Krishnamurti de Carvalho. O laço e o culto: é o Espiritismo uma religião? Santos, SP, DICESP, jun 1985.
FÁVARO, Éder; DEL CHIARO Filho, Amilcar; PALAZZI, Roberto. A estrutura dos centros espíritas de Kardec aos nossos dias. Em: Congresso Espírita Estadual da USE, 7. Águas de São Pedro, SP, 22-24 ago 1986. Anais. s.n.

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