
A eficácia dos passes e da água fluida.
Escreve: Marcelo Henrique Pereira (*)
Feliz é o movimento de homens e idéias que “olha para o seu próprio umbigo” visando implementar as transformações necessárias, alavancando o progresso. Há, evidentemente, em muitos casos, um hiato suficientemente grande entre a teoria filosófica e a prática nas Instituições Espíritas. Estudo é confundido com leitura de obras básicas e discussão, as mais das vezes, significa discordância, e esta, com regularidade, é encarada como “ação das trevas, visando desestabilizar o ambiente”.
Nossa herança cultural tem, no Brasil, raízes católicas. Muitos dos simpatizantes, adeptos e freqüentadores do Espiritismo, como nós, foram educados nas hostes do Catolicismo. E, em paralelo, um bom número de mentores, guias e espíritos comunicantes, sérios e dedicados, foram, em suas últimas romagens terrenas, sacerdotes ou pregadores daquele movimento. Assim, generalizadamente, percebe-se que o movimento espírita é muito parecido com a estrutura do “cristianismo oficial” e, neste sentido, gostaríamos de tecer considerandos sobre duas modalidades da prática espírita de nosso tempo: o passe e a água fluida.
Sobre o primeiro, Kardec aduz no capítulo XIV, item 7, de O Livro dos Médiuns acerca da existência de uma categoria especial de médiuns, os curadores, que desempenham atividade medianímica com inegáveis resultados, utilizando-se dos “dons” de que são portadores. Veja-se, a propósito, o trecho: “Todos os magnetizadores são mais ou menos aptos a curar, desde que saibam conduzir-se convenientemente, ao passo que nos médiuns curadores a faculdade é espontânea e alguns até a possuem sem jamais terem ouvido falar de magnetismo.” Quanto à segunda, da mesma obra, em seu capítulo VIII, tem-se: “O Espírito atuante é o do magnetizador, quase sempre assistido por outro Espírito. Ele opera uma transmutação por meio do fluido magnético que, como atrás dissemos, e a substância que mais se aproxima da matéria cósmica, ou elemento universal. Ora, desde que ele pode operar uma modificação nas propriedades da água, pode também produzir um fenômeno análogo com os fluidos do organismo, donde o efeito curativo da ação magnética, convenientemente dirigida.”
E, neste tópico, como a unir ambas as atividades energéticas, há a conclusão: “Tanto quanto do Espírito errante, a vontade é igualmente atributo do Espírito encarnado; daí o poder do magnetizador, poder que se sabe estar na razão direta da força de vontade. Podendo o Espírito encarnado atuar sobre a matéria elementar, pode do mesmo modo mudar-lhe as propriedades, dentro de certos limites. Assim se explica a faculdade de cura pelo contacto e pela imposição das mãos, faculdade que algumas pessoas possuem em grau mais ou menos elevado.”
Assim, a teoria espírita sobre a fluidoterapia (direta em relação ao paciente ou sobre o meio material, a água), encontra anteparo na atividade mediúnica, com fins específicos para a promoção da saúde e do equilíbrio psíquico das pessoas. Em muitas partes do mundo, paralelamente, a ciência oficial vem promovendo estudos e investigações (independentemente do fenômeno espiritista – isto é aquele que se processa nos ambientes dos das Instituições Espíritas), com resultados expressivos e comprovando a ação energética sobre a matéria.
O que nos preocupa – e nos motivou a escrever este artigo – é o uso “indiscriminado” das terapias (do passe e da fluidificação da água) nos ambientes espíritas, tanto em relação a quem os ministra (médium), quanto nos beneficiários das atividades (os pacientes).
Em primeiro lugar, quem pode aplicar o passe “curativo” e fluidificar a água? Que tipo de “operadores” materiais temos? Que preparo e noção do complexo mecanismo de intervenção dos Espíritos Superiores sob nosso intermédio, têm tais pessoas? Até que ponto somos bons executores destas práticas, convertendo-nos em boas ferramentas no trabalho assistencial espírita?
Secundariamente, que noção têm os freqüentadores dos locais espíritas acerca do mecanismo, da eficácia, do envolvimento pessoal e da responsabilidade no recebimento do atendimento? Que tipo de esclarecimento cumulativamente é prescrito a cada reunião ou trabalho? É franqueado, nestes locais e momentos, oportunidade para o diálogo, a solução de dúvidas e o aprofundamento nas questões teóricas da Doutrina Espírita?
Quanto ao primevo assunto, dirão os mais apressados que “formamos médiuns” e que não se pode duvidar da “idoneidade moral” de quem está à frente deste ou daquele trabalho... No último, afirmarão que a Casa disponibiliza reuniões de palestras públicas e espaços de estudo para que os “interessados” saciem suas indagações com a intervenção de monitores ou expositores.
Será?
Temos visto que as pessoas acodem aos Centros Espíritas com necessidades e intenções bastante distintas, na particularidade. Entretanto, um grande contingente busca consolo e (alguma) orientação. No atendimento em geral ou nas reuniões públicas, não há informações precisas e permanentes sobre a “dinâmica” do trabalho espírita, à exceção de alguns cartazes exortando, por exemplo, ao silêncio e/ou à prece. No mais, alguém fala que “água fluidificada é bom” ou o passe “renova as energias”, ou promove um “descarrego” das vibrações e influências ruins, comuns ao dia-a-dia. Assim, temos uma enorme massa que vem e vai das reuniões espíritas, tomando passe e água fluida exatamente como os católicos tomam comunhão ou se benzem na pia com água benta. Fazem quase como obrigação e há, inclusive, os que dizem que se forem ao Centro e não tomarem o passe, não sairão de lá bem e harmonizados.
Não discutimos, aqui, a eficácia e o alcance do “pensamento positivo” ou da crença pessoal de quem quer que seja. Todavia, quando nos auto-definimos como doutrina da fé racional, é imperioso e imprescindível que se divulgue, repise e oriente que tais práticas não terão eficácia se:
1) o médium que atende, na imposição de mãos sobre o paciente e na fluidificação da água, não seja uma pessoa cônscia de suas responsabilidades na tarefa mediúnica;
2) hajam médiuns “curadores” (“de cura”), pois nem todos os médiuns o são, de modo que, em essência, o atendente até pode converter-se em meio de transporte dos eflúvios espirituais, mas não estará apto a realizar outra tarefa que não seja a de “transmitir energias” e estas, quase sempre, serão as que o próprio médium possui – daí a necessidade do preparo adequado para a tarefa; e,
3) o paciente ou o beneficiário não procure refletir sobre as causas de suas enfermidades e problemas, procurando colaborar consigo mesmo na busca do equilíbrio, serenidade e saúde físico-psíquica.
Quanto ao preparo dos ministrantes de passes ou fluidificadores de água (estes, inclusive, muito rarefeitos nas Instituições Espíritas, de vez que não se vê nenhum médio impondo mãos sobre os frascos com água), o problema ainda é mais preocupante. Muitos, é claro, freqüentam as sessões de “desenvolvimento” mediúnico (termo que, aliás, é totalmente equivocado, porque não se desenvolvem tais dons, mas educam-se), e, até (!) participam de cursos e encontros sobre mediunidade, promovidos pelas federativas ou pelos Centros. Contudo, dificilmente se tem a prática do trabalho, com a instrução teórica, a experimentação, a observação da forma como se trabalha, e, principalmente, a discussão séria sobre os procedimentos considerados adequados, corretos ou aceitáveis. Entra-se na “roda-viva” dos trabalhos, observa-se (de canto de olho) o que o outro faz, e “toque em frente, que atrás vem gente”, ou seja, vamos logo, que há mais gente para atender...
O Espiritismo não pode transformar-se numa seita, calcada na repetição irrefletida de máximas e posturas que acabam tornando-se sacramentos, ritos ou, até, dogmas. O trabalho espírita relevante, verdadeiramente, é aquele centrado no esclarecimento, na explicação racional de fenômenos e contingências espirituais, através da informação segura e da prática sem misticismo. Caso contrário, continuaremos a ser “cegos guiando outros cegos”.
(**) Marcelo Henrique Pereira, Mestre em Ciência Jurídica. Delegado e Secretário para a promoção da juventude da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA) e Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina.
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